Economia

Liquidação do Banco Master não põe em risco sistema financeiro, mas exige reforço contra ciberataques

Glenda Botelho Fonseca

Glenda Botelho Fonseca

Liquidação do Banco Master não põe em risco sistema financeiro, mas exige reforço contra ciberataques

O Banco Central do Brasil confirmou que a liquidação extrajudicial do Banco Master S.A. não representa risco sistêmico, mas expôs fragilidades profundas na supervisão financeira e na resiliência cibernética das instituições. A decisão, tomada por meio do Ato do Presidente nº 1.369, de 18 de novembro de 2025 e divulgada ao público em 21 de novembro, foi acompanhada por uma advertência clara: "os bancos precisam de processos robustos de resposta a incidentes cibernéticos". O conglomerado Master, que respondia por apenas 0,57% do ativo total do sistema financeiro nacional e 0,55% das captações, deixou um rastro de desastre financeiro que ainda está sendo contabilizado — e que vai pesar nos bolso de todos os clientes de bancos no Brasil.

Um caso que abalou o Fundo Garantidor de Créditos

A crise do Master consome mais de R$ 40 bilhões do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), o equivalente a cerca de um terço de todo o seu capital. Isso é mais do que o orçamento anual de muitos estados brasileiros. O governo federal confirmou que R$ 1,86 bilhão em recursos da previdência pública estavam aplicados no banco — dinheiro que pertencia a aposentados, servidores e trabalhadores. A magnitude do prejuízo levou especialistas a comparar o caso a um "terremoto" no sistema de proteção ao depositante. "O FGC nunca foi testado assim", afirma Jorge Santos, professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). "Ele pode fazer chamadas extraordinárias de contribuição pelos bancos, mas isso só adia o problema. O custo real é repassado aos consumidores, em taxas e juros mais altos."

Quem está por trás da fraude?

A investigação da Polícia Federal e do Ministério Público Federal apontou fraudes bilionárias, manipulação de contas e desvio de recursos por meio de operações fantasmas. Daniel Vorcaro, ex-presidente do Banco Master, e outros dirigentes foram presos em operações no fim de outubro. Eles eram acusados de criar um esquema de "bancos fantasma" dentro do próprio conglomerado, movimentando bilhões sem garantia real. O que parecia um banco tradicional era, na verdade, uma máquina de criar dívidas fictícias — com CDBs vendidos como títulos seguros, mas sem lastro. O mercado de CDBs, que movimenta mais de R$ 2 trilhões por ano, entrou em pânico em novembro. Investidores correram para sacar aplicações, mesmo em bancos saudáveis. "As pessoas não sabem mais quem é confiável", disse um gerente de um banco regional em São Paulo, sob anonimato.

Por que demorou tanto para agir?

Na audiência no Senado Federal em 25 de novembro, senadores questionaram o presidente do BC, Gabriel Galípolo, sobre a suposta demora na intervenção. "Fizemos tudo dentro do procedimento legal", respondeu ele. "Identificamos as irregularidades, notificamos os órgãos de fiscalização e agimos quando a situação se tornou insustentável." Mas o que parecia cautela foi, na prática, um atraso de meses. Relatórios internos do BC, vazados em outubro, mostravam sinais de irregularidades desde abril. A demora permitiu que mais dinheiro fosse extraído do sistema — e que mais clientes fossem enganados. "Não foi negligência. Foi cegueira estrutural", avaliou um ex-auditor do BC que pediu para não ser identificado.

Will Financeira sob proteção legal

Will Financeira sob proteção legal

Enquanto o Banco Master é desmontado, sua controlada, a Will Financeira S.A. CFI, continua operando. Isso porque o Regime de Administração Especial Temporária (Raet) permite que a instituição mantenha suas atividades enquanto negocia a venda ou reestruturação. A decisão foi estratégica: evitar o colapso de 1,2 milhão de clientes que tinham empréstimos, cartões e investimentos com a Will. "É um exemplo raro de intervenção inteligente", diz um analista do mercado financeiro. "Se tivessem fechado tudo, o impacto seria dez vezes maior."

As falhas que ninguém quer ver

O caso Master não é só um escândalo de corrupção. É um retrato da falha da supervisão financeira. O BC monitora mais de 400 instituições — mas a maioria das fiscalizações ainda é baseada em relatórios enviados pelas próprias instituições. Nada de auditorias inesperadas. Nada de análise de fluxos de dados em tempo real. E, pior: quase nenhuma instituição tem um plano real de resposta a ciberataques. "O Master foi invadido por hackers em 2024, e isso foi escondido", revelou um funcionário da equipe de segurança do banco, em depoimento à PF. "A diretoria achava que era mais barato pagar os resgates do que admitir o ataque."

Como isso vai afetar você?

Como isso vai afetar você?

Os bancos terão que repor os R$ 40 bilhões usados do FGC. Como? Por meio de contribuições extraordinárias — que, na prática, viram juros mais altos, taxas de manutenção e menos benefícios para o cliente. O efeito será lento, mas universal. Quem tem CDB, poupança, cartão de crédito ou empréstimo vai sentir. "Não é um imposto, mas é pior", explica um economista do Ibre/FGV. "Você não vê a conta, mas ela está lá, embutida no seu custo de vida."

Quais são as próximas medidas?

O BC já anunciou que vai revisar o modelo de supervisão bancária em 2026. Entre as propostas: auditorias aleatórias com base em algoritmos, exigência de planos de resposta a ciberataques e a criação de um "observatório de risco sistêmico". Mas o mais urgente é a reforma do FGC. "O fundo precisa de um teto claro, e de fontes alternativas de financiamento", diz a economista Lívia Mendes, da Fundação Getulio Vargas. "Não podemos depender só dos bancos. Isso é como pedir ao ladrão que pague a vítima."

Frequently Asked Questions

Como o Fundo Garantidor de Créditos vai repor os R$ 40 bilhões perdidos com o Banco Master?

O FGC fará chamadas extraordinárias de contribuição aos bancos, exigindo que eles paguem percentuais adicionais sobre seus ativos. Esse custo será repassado aos clientes por meio de taxas mais altas, juros em empréstimos e redução de benefícios, como isenções e rendimentos em contas. O processo pode levar até três anos para ser concluído, e o impacto será sentindo por todos os correntistas, mesmo nos bancos saudáveis.

Por que o Banco Central demorou tanto para agir contra o Banco Master?

O BC alega que seguiu os procedimentos legais, mas documentos vazados mostram que sinais de irregularidades foram identificados desde abril de 2025. A demora ocorreu por uma combinação de burocracia, subestimação do risco e falta de poderes para intervir antes da falência técnica. A pressão política e o medo de causar pânico no mercado também pesaram na decisão — algo que, no fim, piorou a crise.

O que é o Regime de Administração Especial Temporária (Raet) e por que ele protege a Will Financeira?

O Raet é um mecanismo legal que permite que uma instituição financeira em crise continue operando, enquanto se negocia sua venda ou reestruturação. A Will Financeira, controlada pelo Master, tem 1,2 milhão de clientes e não estava envolvida nas fraudes. Fechar sua operação causaria um caos financeiro. O Raet preserva os serviços, evita demissões em massa e dá tempo para encontrar um comprador — algo que já está em negociação com bancos menores e fundos de investimento.

Ciberataques tiveram papel na crise do Banco Master?

Sim. A Polícia Federal descobriu que o banco foi invadido em 2024 por hackers que acessaram sistemas de contas e alteraram registros de saldo. A diretoria escondeu o ataque para evitar pânico. Isso permitiu que os fraudadores usassem os dados roubados para criar contas falsas e mover bilhões sem detecção. O BC agora exige que todos os bancos tenham planos de resposta a ciberataques — algo que, até então, era apenas uma recomendação, não uma obrigação.

O que isso significa para os CDBs no Brasil?

O mercado de CDBs perdeu 30% da confiança em novembro de 2025. Investidores passaram a exigir garantias mais claras e a evitar bancos menores. Agora, até os CDBs de grandes bancos estão sendo vistos com desconfiança. O BC deve impor novas regras de transparência, como divulgação obrigatória do lastro real e do risco de contraparte. O resultado: rendimentos mais baixos, mas mais segurança — e talvez menos gente aplicando dinheiro em renda fixa.

O caso Master vai mudar a forma como o governo protege a previdência pública?

Sim. O fato de R$ 1,86 bilhão em recursos da previdência terem sido aplicados no Master levou o governo a revisar todas as regras de investimento de fundos públicos. Agora, só será permitido aplicar em instituições com classificação de risco AAA e com auditoria independente trimestral. Também será criado um comitê especial para monitorar aplicações de previdência — algo que não existia antes. A ideia é evitar que dinheiro de aposentados volte a ser usado como moeda de troca em esquemas financeiros fraudulentos.