Em relação às forças que se debatem no interior do homem, foi dito que num estágio mais avançado do trabalho espiritual “nós movemos de oposição à colaboração”. Agora, no momento em que escrevo esse post e a partir do estado de consciência em que normalmente vivo, penso ser difícil analisar o que acontece em um estágio mais avançado. Nesse momento minhas observações sobre isso me parecem superficiais, já que o inferior não pode “ver” o superior. Creio que para compreender os momentos de Lembrança de si precisamos estar vivenciando a Lembrança de si. Por isso, não é fácil falar de estados espirituais superiores. Essa é a tarefa a que a arte superior se dedica.
O que observo em meu trabalho é que as forças contrárias ao despertar parecem estar sempre em um estado de inércia resultante de algum impulso ocorrido no passado. Depois do esforço que é feito para quebrar esse momentum, um estado superior de consciência surge por alguns instantes, quando a mente e o corpo parecem se calar e não criam obstáculos para a Lembrança de si. Esse momento parece estar simbolizado na figura da deusa egípcia Bastet, quando ela aparece retratada como um gato sentado sobre as patas traseiras, em posição ereta e com a cabeça erguida aparentando estar em perfeito equilíbrio. Entendo que essa imagem simboliza a mente e o corpo em um estado de harmonia, “colaborando” ao não obstruir a Lembrança de si.
Tenho uma pequena estatueta de Bastet em minha casa, uma réplica que comprei em uma loja de arte egípcia alguns anos atrás. E quando observo a postura altiva do gato que representa Bastet, eu me recordo que nos momentos em que experimento um estado superior de consciência a postura de meu corpo parece influenciar bastante meu estado. Às vezes, neutralizar a tensão em algum membro ou endireitar minha coluna parece retificar algum processo já em andamento e ajudam o estado superior a permanecer por mais algum tempo. Quando a força contrária ao trabalho espiritual está menor, consigo prolongar o estado de Lembrança de si com algumas ações simples, por exemplo, alterando a inclinação de minha cabeça e elevando o meu olhar, colocando mais atenção na observação de algum detalhe, intencionalmente não satisfazendo algum desejo que pode surgir de coçar alguma parte do meu corpo, ou utilizando suavemente minha respiração como uma espécie de fole para alimentar o “fogo” da Lembrança de si. Nesses momentos em que a forças opositoras se mostram mais fracas, pequenas atitudes como essas podem ser efetivas para prolongar um estado superior de consciência. Quando a mente e o corpo se acalmam por alguns instantes, o que é inferior “colabora” mantendo-se subjugado, pois é chegada a hora de ceder espaço para aquilo que lhe é superior.

“O funcionamento adequado dos centros auxilia o estado de Lembrança de si.” – P.D. Ouspensky