Tempos atrás eu tive um estranho sonho e nele eu me encontrava em uma prisão, numa espécie de penitenciaria cheia de corredores e de portas com grades de ferro. Eu estava ansioso para escapar dali. Aparentemente faltava pouco para isso. Eu estava aguardando que os guardas abrissem alguns grandes portões internos da prisão para que eu pudesse sair. Essa prisão era grande e moderna e ficava no subsolo de algum lugar. Acordei sem saber o fim desse sonho que me causou uma forte impressão. Lembrei-me dele, pois em alguns momentos de sofrimento ou quando estou atordoado por ver minha incapacidade de me livrar de minha mecanicidade percebo que “escapar” ou “despertar” é como sair de uma prisão. Mas essa prisão está sempre aqui, no “agora”, e para sair dela necessito fazer esforços conscientes no momento. Após algum tempo me vejo preso novamente, até que seja feito um novo esforço para que eu desperte por mais alguns instantes.
Gurdjieff disse que quando alguém compreende que está numa prisão ele deve fazer tudo o que puder para sair de lá o mais breve possível. O “despertar” ou a “fuga da prisão” requer a transformação do sofrimento quando ele surge em pequenas ou em grandes situações. Por exemplo, o esforço consciente de se aceitar uma doença ou algum processo doloroso físico ou emocional, quando bem sucedido, transforma a energia negativa da não aceitação, o mau humor, a irritação e etc., em uma peculiar sensação de bem estar por simplesmente se estar ali, presente e com vida. E nesse momento as cores do ambiente, os sons, os odores, podem se tornar mais nítidos e fortes para nossos sentidos. De repente compreendemos que aquele sofrimento é passageiro e está ligado aos aspectos mais grosseiros de nosso corpo físico.
Saber como fazer essa transformação através de um esforço consciente é resultado de um conhecimento que é compartilhado em uma Escola real para a evolução espiritual. Todos sofrem nesse mundo e alguns conseguem usar esse sofrimento para sua evolução.
Frequentemente tenho problemas alérgicos que me causam irritação e me deixam em um estado negativo. Apesar de usar medicamentos, observo que essas minhas alergias parecem que nunca serão completamente controladas. E embora eu tente tudo que posso para sanar esse desconforto, também compreendo que devo tentar usa-lo para minha evolução. Quando não estou muito identificado com ele, utilizo-o como combustível para a Lembrança de si.
Tento aceitar esse sofrimento como algo inevitável e necessário. E quando consigo, eu escapo por alguns momentos da “prisão” através desse meu esforço consciente. E de acordo com o Quarto Caminho, escapar definitivamente dessa prisão é possível, mas só depois de muitos esforços conscientes e de inúmeras pequenas “escapadas” anteriores.