O Exercício do Olhar

Nós conduzimos um experimento. Pela duração de um minuto (cronometrado no timer do nosso celular), estudantes foram solicitados a receber uma impressão após a outra de seu ambiente mais imediato em intervalos de uma respiração. Por exemplo: comece olhando uma caneca na sua mesa, na próxima respiração mude seu olhar para o carpete, então na outra respiração olhe para a paisagem através da janela, e assim por diante, durante um minuto. Os estudantes foram convidados a repetir esse exercício do “olhar” em diversas situações durante seus dias, e solicitados a observar seu estado emocional antes e depois do exercício. Eles puderam verificar um efeito emocional como resultado de receber impressões neutras por um minuto consecutivo?

Naturalmente, tal “olhar” vivifica nossa paisagem interior. Primeiro, devemos resistir ao momentum, a força invisível que nos arrasta através do dia e que considera parar para notar uma flor algo supérfluo. A seguir, temos que segurar as rédeas de nossa visão, normalmente permitida para vagar livre e aleatoriamente. Então temos que prestar atenção, olhar através dos nossos olhos para achar um objeto e estudá-lo. E finalmente, devemos resistir ao impulso de gerar associações em relação ao objeto que vimos, o que facilmente nos leva para longe do nosso exercício de um minuto.

Esse exercício destaca o quanto do nosso tempo é gasto ignorando o que está em nossa frente. Mais ainda, mostra que, mesmo se “olharmos”, não necessariamente “notamos”. “Num estado psíquico ordinário eu simplesmente olho para a rua”, diz Gurdjieff. “Mas se eu lembro de mim mesmo, eu não apenas olho para a rua; eu sinto que estou olhando, como se dizendo para mim: ‘Eu estou olhando’. Ao invés de uma impressão da rua, há duas impressões, uma da rua e outra de mim mesmo olhando…” Quando estamos em devaneios, a vista da rua ricocheteia em nós da mesma forma que a luz ricocheteia da superfície de um espelho luminoso. Mas se intencionalmente internalizarmos essa impressão – como o exercício do “olhar” nos convidou a fazer – ela suscita um certo processo. E, de fato, os estudantes verificaram que o exercício produziu um efeito emocional. Receber até mesmo as impressões mais comuns ao nosso redor – juntamente com a disciplina interior envolvida – gerou emoções.

Uma planta saudável, como a que o nosso fazendeiro de Abril segura em sua mão direita, pode transformar a luz do sol em alimento. Ela transforma matéria eletrônica em matéria celular. Nós temos uma habilidade similar de nos alimentarmos de impressões. A planta faz isso automaticamente, enquanto para nós somente pode ocorrer ao aplicarmos nossa vontade. Esse foi nosso trabalho de Abril.

“Num estado psíquico ordinário eu simplesmente olho para a rua. Mas se eu lembro de mim mesmo, eu não apenas olho para a rua; eu sinto que estou olhando, como se dizendo para mim: ‘Eu estou olhando’. Ao invés de uma impressão da rua, há duas impressões, uma da rua e outra de mim mesmo olhando…”
Gurdjieff