Realização – Marco

Marco Ferreira, São Paulo
Gurdjieff Realização - Marco

Alguns anos atrás eu morava em uma ilha dos Açores, um arquipélago que pertence a Portugal. Um dia eu fui conhecer um ponto turístico, a cratera de um grande vulcão extinto que ficava na montanha mais alta daquela ilha. Consegui um carro alugado com um motorista, e ele me levou até a cratera que ficava numa região distante e isolada. Depois de muito esforço para chegar lá, lembro-me de ter notado que apesar de estar naquele local exótico e muito bonito, com uma estupenda vista panorâmica da ilha e do Oceano Atlântico, alguma coisa não estava bem. Observei que eu não conseguia realmente desfrutar de toda a beleza daquele momento, pois minha mente não parava de produzir pensamentos e associações. O trabalho mental não cessava. E por causa disso eu sequer conseguia experimentar o silêncio daquele lugar para aproveitar ao máximo o contato com a natureza. Essa experiência provocou em mim uma forte impressão e ainda me recordo disso passados quase 20 anos. Para mim, a beleza daquele instante foi incompleta, pois não consegui calar minha mente.

Considero essa experiência como uma das primeiras e mais fortes percepções que já tive da prisão em que vivo. Todas as verdadeiras religiões tratam desse assunto, falam desse interminável fluxo de pensamentos que domina nossa mente. Talvez essa seja a prova mais forte do triste estado em que normalmente vivemos. Por causa do incessante trabalho mental, a verdade é que o homem tem muita dificuldade para conseguir desfrutar do momento presente. Algo nele luta contra isso, e impede que ele consiga penetrar no “agora”.

Também é verdade que o objetivo de quase todos os tipos de meditação é conseguir controlar e silenciar a mente. E talvez o homem não deva tentar isso apenas em momentos especiais e raros do seu dia, ou seja, enquanto ele medita. Gurdjieff disse que o Quarto Caminho é chamado de “o caminho do homem sensato” por que com ele conseguem-se resultados mais rapidamente. Ele acontece na vida normal, no dia a dia do homem. Não é necessário ir para um mosteiro ou convento para se dedicar a esse sistema filosófico espiritual. Sua principal ferramenta é a Lembrança de si, que nos ajuda a estar presente e a experimentar estados de consciência superiores em nossa vida cotidiana.

Algum tempo depois do ocorrido nos Açores, enquanto conversava com uma amiga que conheci quando comecei a trabalhar com as ideias do Quarto Caminho, recordo-me de contar-lhe essa história e de dizer como tive sorte em encontrar esse sistema de ideias. Disse a ela que caso me encontrasse novamente numa situação parecida como aquela que aconteceu na cratera daquele vulcão, uma nova frustração poderia ser evitada. O Quarto Caminho nos ensina como lidar com o incessante fluxo de pensamentos, e eu aprendi o que deveria fazer. A partir de então, eu tinha uma ferramenta poderosa para utilizar no meu trabalho interno, pois eu tinha a Lembrança de si.