Gurdjieff Falta Principal

Gurdjieff Falta Principal

“Todo homem tem uma certa característica em seu caráter que é central. É como um eixo em volta  do qual toda a sua “falsa personalidade” revolve. O trabalho pessoal de cada homem deve consistir na luta contra esta falta principal.”-. George Gurdjieff (citado por Peter Ouspensky, Em Busca do Milagroso, p.233)

Gurdjieff sobre característica principal

Gurdjieff falava de uma característica central na psicologia do homem em torno da qual girava toda sua falsidade. “Um homem fala demais, ele tem de aprender a ficar calado”, disse ele. “Outro homem está em silêncio quando ele devia falar.” Esta característica principal é feita sob medida para cada um, o que torna o trabalho em característica principal um esforço pessoal e prático.

O fato de termos uma característica principal assentada na raiz de todos os nossos outros traços anuncia boas e más notícias: por um lado, nos poupa de um estudo excessivo, convidando-nos a focar em uma única tendência mecânica. Se só ganharmos o controle sobre este foco, com um só golpe vamos nos tornar mestres de todos os raios que se ramificam a partir dele. Mas, por outro lado, por essa tendência ser parte tão profunda do nosso perfil psicológico somos incapazes de captá-la e compreendê-la.

A cegueira é um traço fundamental da característica principal. O homem está dormindo porque ele não sabe que está dormindo. Ele é governado por ações mecânicas porque ele não pode vê-las. Cego para o que determina sua própria conduta, o homem permanece incapaz de ver a si mesmo, a menos que lhe seja mostrado por outra pessoa.

“Um homem não pode encontrar a sua característica principal, sua falha principal, por si mesmo. Isso é praticamente uma lei. O professor tem que apontar lhe essa característica e mostrar-lhe como lutar contra ela. Ninguem mais além do professor pode fazer isso “-. George Gurdjieff (citado por Peter Ouspensky, Em Busca da Milagrosa, p.233)

Possíveis fontes de Gurdjieff

Sabedoria grega antiga

Gurdjieff - Hercules slaying the Hydra

Hércules mata Hydra

Este ponto cego aparece em vários mitos de várias culturas, sendo incorporado de forma mais famosa no antigo mito de Aquiles. O poderoso guerreiro era invencível aos ataques humanos, exceto por uma única fraqueza, através da qual ele foi derrotado. Os gregos denominaram esta fraqueza principal e letal de “calcanhar de Aquiles”.
O princípio reaparece em outro mito grego importante: Hercules e a Hydra. Como um de seus doze trabalhos, Hércules é enviado para matar Hydra, uma serpente venenosa de muitas cabeças. Hércules corta uma das muitas cabeças da Hydra apenas para descobrir que duas surgem em seu lugar.

Gurdjieff - Hydra locking Hercules

Hydra winding its tail around the heel of Hercules

O que Gurdjieff expressou sistematicamente, os gregos transmitiram mitologicamente: as muitas cabeças provenientes do corpo da Hydra espelham os muitos raios provenientes do eixo da característica principal. O trabalho do herói grego para despachar a Hydra encarna o ato heróico de controlar a si mesmo.

Mas o auto-controle é difícil e iremos muitas vezes nos envolver em nossa própria rede de auto-ilusão. Um fragmento de mármore do século 17 mostra Hydra enrolando a sua cauda em torno do calcanhar de Hércules, aumentando assim a posição já problemática dele. Mais uma vez o ponto cego, a fraqueza principal, sendo usado contra o valor do herói.

Hércules só consegue matar seu inimigo, quando um amigo o ajuda a cristalizar com fogo cada pescoço decapitado. O fogo impede novas cabeças de brotarem. Nosso herói é forçado a enfrentar a raiz do problema, assim como Gurdjieff aconselhou seus alunos a ganharem o controle de suas fraquezas principais.

Aquiles, como se sabe, sofre um destino diferente de Hércules. Ele é morto através de seu ponto fraco. Paris dispara uma seta perfurante mergulhada no sangue venenoso da Hydra e atinge o seu calcanhar.

“Dificilmente se pode encontrar a própria característica principal, porque estamos nela, e se nos é contado, habitualmente não acreditamos.” – Peter Ouspensky (O Quarto Caminho, p.184)

Sabedoria Cristã Antiga

Gurdjieff - Last Judgment

Adão e Eva

Adão e Eva ajoelhados no Juízo Final. A serpente morde o calcanhar de Adão.
Se a característica principal é tão central para a psicologia do homem, então é razoável esperar que ela se tornasse um princípio central no Cristianismo Esotérico – o que de fato aconteceu. Adão e Eva, os primogenitores da humanidade, incorporam tanto o princípio como as consequências da característica principal.

Além da honra de serem os pais da humanidade, Adão e Eva também ganharam notoriedade por terem cometido o “pecado original”, por sucumbirem à tentação da serpente e perderem o Paraíso. Representações ortodoxas do Juízo Final recapturam esta cena ao mostrarem Adão e Eva curvando-se diante de Cristo juiz, implorando o perdão pela famosa falta.

Uma grande serpente se enrola para baixo, indo de Adão para o submundo. Como os jogadores deste jogo de cobras e escadas, a nós, os espectadores, são dadas duas opções: ou subir para o céu ou escorregar para o inferno. E onde é que a serpente ameaça morder Adão? Onde mais, senão no calcanhar!

Uma vez que os nossos sentidos estão localizados principalmente em nossas cabeças (com a única exceção do sentido do tato), o calcanhar fica no extremo mais distante da nossa consciência. É um local físico fraco. Mas, tal como é fora é dentro: mitos antigos traçam um paralelo entre esta cegueira física para uma psicológica correspondente. George Gurdjieff a chamou de característica principal.

A perspectiva de ser cego para o centro de nossa falsidade é bastante inquietante. Mas podemos transformar essa fraqueza em força: podemos reconhecer nossa cegueira e convertê-la no impulso para trilhar o caminho heróico de auto-controle.

“O estudo da falta principal e a luta contra ela constituem, por assim dizer, o caminho de cada homem individual, mas o objetivo deve ser o mesmo para todos. Este objetivo consiste na percepção de que não somos nada. Somente quando um homem verdadeiramente e sinceramente chega à convicção de sua própria impotência e nulidade, e apenas  quando sente isto constantemente, ele estará preparado para as próximas e muito mais difíceis etapas do trabalho “-. George Gurdjieff (citado por Peter Ouspensky, Em Busca do Milagroso, p.233)